Convite para meu velório

Amendoim praline - Amendoim praline

Duas partidas me fascinaram, recentemente. Uma delas, já comentada à exaustão, a da comediante Dercy Gonçalves. Em meio às polêmicas sobre sua vida e trajetória artística – sobre as quais não quero me deter – momentos diferentes daquilo que nossa cultura habitualmente chama de “velar um corpo”. Uma bateria de escola de samba, marcando um ritmo alegre e cheio de energia; uma solenidade católica, em uma pequena cidade interiorana, sendo interrompida para dar lugar a um velório de uma mulher cuja marca registrada era o deboche aos ícones do tradicionalismo; um bloco carnavalesco entoando marchinhas; pessoas dizendo palavrões, “homenageando” a passagem do cortejo.

Alguns dias depois, em um canal de TV por assinatura, assisti a um documentário sobre o funeral de uma senhora que foi morta por um tiro, dado por um policial, na Guiana. Ela, membro da minoria negra, recebeu as homenagens de praxe na tradição da Guiana: festa, música alegre, dança, roupas coloridas, instrumentos musicais sonoros e um cortejo que lembra o nosso Carnaval. Bebida para regar o corpo, muita felicidade, para alegrar a alma. A explicação: liberto da carne, o espírito da senhora agora poderá encontrar-se com a essência divina. Liberta de todo sofrimento, não mais sofrerá as dores terrenas. E, sem nenhum traço de egoísmo, seus amigos e familiares comemoram. Seu filho sorri e recebe cumprimentos dos seus amigos. Toda lágrima é afastada por sorrisos, gargalhadas até. Não há apego. Lembram-se dela pelos momentos bons, lamentam seus infortúnios, mas têm a certeza de que ela está em melhores condições do que eles, viventes desse plano de aprendizado pela dor.

Confesso que invejei os dois funerais. Quisera eu também poder saber que, quando partir, meus amigos e familiares não experimentarão uma dor pungente, uma tristeza profunda. Ah, quem dera uma festa como aquela da Guiana. Quem dera saber que minha partida para outros planos, caso existam, será responsável pela promoção de um Carnaval. Ah, que delícia, em vez de lágrimas, pranto, gemidos, ter em minha partida derradeira os acordes vibrantes de uma bateria de escola de samba. Invadir ruas com meus acompanhantes e suas roupas vistosas, enquanto a platéia, estarrecida, vê passar a alegria de quem viveu cada dia com a certeza de uma fé inabalável de que vamos, de fato, alcançar outros planos melhores.

Na Guiana, as pessoas brindam, com convicção. Creio que isso, sim, é representação sublime de uma fé que para a nossa cultura é difícil de compreender. Mas não tentem compreender, amigos. Celebrem minha ida, com o vigor de quem desfila na avenida, entre fantasias, alegorias e adereços. Não sabemos o que há do outro lado, mas com certeza lamentarei apenas por vocês não estarem desfrutando comigo de um lugar novo e, espero, bom de se estar. Na despedida de Dercy, o refrão do samba dizia: Bravo, Bravíssimo! Imaginem chegar ao outro lado com esse coro, celebrando minha façanha de ter vivido em plenitude. Não sei da vida de Dercy. Não me interessa se foi boa ou vilã. Que esta discussão fique para quem não prestou atenção à festa e à celebração do futuro e quer apegar-se ao passado. Mas um coro desses é de dar inveja! Bravo, bravíssimo! Normalmente platéias dizem isso de pé, entre lágrimas não de tristeza, mas de euforia. É um momento em que os céus se abrem e os homens entram em sintonia com o Mágico, o Divino!

Nunca gostei de velórios e enterros. Nunca soube o que dizer ou fazer. Sempre senti, nos familiares, um hálito ruim, um cheiro exalante e estranho, que me enjoa e me incomoda. Não quero isso em minha partida. Quero um cortejo com música alegre e coros festivos. Nada de cheiro de flores murchas. Quero cheiro de pipoca novinha estalando, de amendoim praliné e coquinho com canela. Quero baianas oferecendo quitutes. Uma orgia de sabores, cheiros e sons de alegria!

Quero que venham à minha despedida os negros da Guiana, com suas vestes coloridas, seus lenços acenando, suas gargalhadas. Quero uma escola de samba e passistas e velhinhos sorridentes tocando marchinhas. Quero palhaços, circo e poetas, entoando canções pelos cotovelos. Quero uma bagunça gostosa, celebrando a partida para a certeza da paz e não para a incerteza e a eternidade do luto.

Estou impregnado de inveja. Doente de inveja. Talvez até morra, de tanta inveja. E, por favor, amigos, se eu morrer esta noite, de tanta inveja, respeitem meu último desejo e, amanhã, vistam-se para a melhor de todas as festas, enfeitem minha casa, encham a rua de alegria e abram alas, que eu estou a caminho de um certo, bom e belo lugar onde, um dia, com certeza, esperarei por vocês.

(Ney Mourão)

5 comentários Quarta, 23 de Julho de 2008 às 20:21 admin

O poeta borralheiro um dia depois do baile

contosFabulas - contosFabulas
As fábulas e histórias infantis são escritas, quase sem exceção, para que seus leitores estabeleçam metáforas, realizem reflexões, sedimentem conceitos, assimilem mitos e valores. Isso tanto pode ser explícito, como naqueles pequenos enredos que terminam com um “moral da história”, ou de forma subliminar, escondido, recôndito, como nas conhecidas sedimentações dos valores familiares – e, dizem alguns, até morais e sexuais – como acontece em Chapeuzinho Vermelho (nunca afaste-se da trilha, nunca desobedeça), a Cigarra e a Formiga (todo trabalho é recompensado e quem trabalha é sempre ético, bondoso e compreensivo com os preguiçosos arrependidos e talentosos) ou Rapunzel (cobiçar a propriedade alheia pode ter drásticas conseqüências).

Habitualmente, todas as histórias infantis tendem a terminar com um final feliz. O bem sempre triunfa, o mal é sempre castigado e os leitores respiram aliviados – ou não, se no fundo se suas almas reside uma certa afinidade com o Lobo Mau, a Bruxa Malvada ou a Madrasta vaidosa, com seu espelho, cremes e poções.

Quando, um dia, imaginei o personagem “Poeta a Procura de Editor”, como nas fábulas, imaginei que ele também tivesse um final feliz. A pretensão de término de sua história, na verdade, pode ser comparada ao “viveram felizes para sempre”, que é por si, não um rito de final, mas um rito de passagem para um início. Se imaginarmos que “para sempre” começa ao final de cada história, é claro que inconscientemente imaginamos nossos personagens começando uma vida nova, longe das agruras da bruxa, longe das poções, das maçãs envenenadas, dos lobos ferozes. Como após o “sim” no altar real dos casamentos, imaginamos que Branca de Neve, após descer do cavalo do Príncipe (ele tinha um cavalo ou estou confundindo as histórias?), entrará em casa, amará seu belo rapagão, terá filhos, que crescerão, amarão suas esposas, esquecidas, mas confortáveis e eternamente protegidas na segurança do para sempre.

O “Poeta a Procura de Editor”, tal qual a gata borralheira, sonhava com o baile. O baile de uma capa impressa, o baile de pessoas lendo suas palavras longe da obscuridade das paredes de tapumes abandonados. O baile de felizes convivas brindando o lirismo, perfumados, vestidos a caráter para ocupar o salão.

Ontem, no lançamento do livro “Notas Dispersas pelas Paredes”, o borralheiro poeta, brindado pela varinha mágica do destino, vestiu sua alma da melhor roupa e foi, finalmente, ao baile. Lá estavam os convidados, festivos. Gente de todas as partes do reino real do compartilhar de um sonho. Gente querida, amigos de infância, colegas de jornadas profissionais, familiares, seus pais – orgulhosos, ufanados e ufanantes pelo pimpolho borralheiro cujo coração transbordava como um cálice de cristal repleto de bênção.

Em meio ao salão, o Poeta não respeitou muito o ritmo solene da música habitual desses bailes de caráter literário. Talvez até tenha trocado os pés pelas mãos ao bailar. Borralheiro que é borralheiro tem sempre essa alma assim, perdida em meio à nobreza. Abraçou demais, porque a vontade de abraçar alguns que não via há mais de uma década era maior que o protocolo. Trocou sua cadeira de lugar, para ficar mais perto dos convidados.

Lá estava, em meio a todos, o sonho materializado. Longe do borralho e do pó dos muros, longe da fuligem das ruas, longe do crepitar das sirenes, em ambiente acolhedor, cálido, de luz planejada, de mobiliário rico. Lá estava a carruagem imóvel, mas palpitante das letras. Lá estava a roupagem lírica traduzida em uma capa impressa. Concreta, palpável, que não pode ser mais retirada do todo da paisagem, pois o conteúdo ficaria incompleto. Lá estava, rodopiando sob os olhares dos amigos – a maioria dos presentes eram mesmo os amigos do borralheiro sonhador – fulgurante e belo, o cristalino objeto. Mais que um sapato de cristal para o baile, o poeta, enfim, viu seu livro. Ele viu e todos que lá estavam, comemorando com ele.

Uma noite apenas, após quase vinte anos. Uma noite de sonhos, para o borralheiro poeta e seu objeto cristalino sobre a mesa. Notas dispersas de uma canção composta por tanto tempo.

Como em toda história infantil, no entanto, o personagem tem que cumprir sua sina. E, deixado a caminhar, para iniciar seu final feliz, lá estava, ao final da noite, o Poeta. Meio às pressas, como nos finais das histórias, foi-se. Não sem antes perceber que havia deixado para trás algo inesquecível. Lá estava, em meio a outros cristalinos objetos, seu livro. E o livro não estava só. Lá estava, em uma prateleira, em destaque, tendo ao alto, duas e apenas duas palavras. Duas palavras que, para o Poeta, naquela noite, ao final do baile, era a tradução verdadeira do “felizes para sempre”. Lá estava, talvez ainda como um vestígio do encantamento da vara mágica do destino, duas palavras: “Mais vendidos”.

Hoje, o Poeta está aqui, vivendo o primeiro dia após o baile. Lá, próximo ao salão, ficou seu livro, abrigado sob as duas palavras. “Mais vendidos”. O Poeta está feliz. Ainda que seu objeto cristalino não seja mais encontrado pelo príncipe leitor e que ele tenha que retornar à realidade cotidiana, a imagem do objeto sob as palavras estará para sempre feliz em sua mente. Hoje, pode ser que não mais estejam lá as palavras. Quebrado o encanto, dissolvidas a carruagem, as vestes, a música que embalou os corações, haverá, no entanto, impregnada na alma do poeta, feliz, para sempre, a certeza de que paredes não suportam os sonhos.

Como autor cujos sentimentos misturam-se loucamente aos desse Poeta inebriado ainda pelos acordes das notas de ontem, volto à vida. Talvez ainda borralheiro. Mas com a imagem de um cristal perdido na escada. Uma lembrança e uma esperança imensa de que o cristal seja, sim, encontrado. A tola esperança que, bem sei, move a todos nós. A esperança de um “feliz para sempre”.

Obrigado a todos que compartilharam, comigo, com o Poeta, a procura e o encontro, o sonho e a realização!

Ney Mourão - Autor de “Notas Dispersas pelas Paredes”, livro de poesias recém-lançado pela Autêntica Editora

6 comentários Sexta, 20 de Junho de 2008 às 18:22 admin

Novos tempos, novas ferramentas, novos jeitos de aprender e existir

jeito novo - jeito novo
O filósofo, físico e matemático francês René Descartes, se hoje vivesse, talvez tivesse dito sua máxima mais célebre assim: “Teclo; logo existo”. Ainda assim, com a vertiginosa velocidade do avanço das tecnologias, tal afirmação correria o risco de, dentro de alguns anos, com o já previsível desaparecimento dos teclados em nossas máquinas, também tornar-se obsoleta.

É fato conhecido: nas últimas décadas, experimentou-se, no campo tecnológico, um acúmulo de descobertas e novidades equivalente ao que se conseguiu em séculos de anterior existência humana. A chamada Era do Conhecimento trouxe, para o processo de ensino/aprendizagem, novas perguntas, novos questionamentos e a necessidade de respostas tão ágeis quanto o contexto em que estão inseridas. A TV de nossa sala mostra, em tempo real (e nunca se disse tanto a expressão “tempo real” como agora), a imagem de dois aviões invadindo duas torres, em um lugar a milhares de quilômetros de distância. De imediato, nossos filhos querem saber por que, onde ficam os prédios, quem é o senhor de barba longa a quem é atribuído o ataque. Num lampejo, todo o mundo está plugado, em rede, com históricos disponíveis, localizações geográficas, simulações de vôos, gráficos, reflexões ético-antropológicas. Conecto-me; logo existo! Eis a fórmula de um tempo novo!

Um personagem deste cenário em turbilhão vive ansiedades maiores. Um personagem habituado à constância, à previsibilidade, às fórmulas prontas, aos livros onde o saber estava consolidado, a um tempo medido mais pela cronologia do que pela efervescência. Um personagem de um mundo onde aviões não atravessavam torres, com transmissão ao vivo em telas instaladas em suas salas.

O professor é um personagem cujo papel mais definidor era a capacidade de oferecer respostas. No atual cenário, multiplicam-se as perguntas e a relação ensino-aprendizagem torna-se efetiva teia de construção de saberes, onde também o docente é um vivenciador das mudanças. Novos saberes, novos sabores precisam ser descobertos.

”As tecnologias conectam as pessoas, que se conectam entre si”, disse Bill Gates. As novas tecnologias digitais têm possibilitado uma dinâmica nova, oportunizando a disponibilização de informação em rede e uma nova postura dos agentes vivos que dela se utilizam. Alguns começam a tornar-se mais ativos e interativos. Ou, pelo menos, estão sendo estimulados a desenvolverem tal perfil - por exigência do mercado ou por incentivo dos seus parceiros, tanto instrutores/facilitadores quanto aprendizes também.

Na Educação a Distância, um leque imenso de possibilidades se abre. Conexões mais ágeis permitem a evolução do aspecto gráfico dos ambientes, a criação de novos recursos de interação entre aprendizes, a exploração de novas linguagens. Mais que isso, oportuniza a diminuição do contingente de excluídos no acesso à informação.

É certo que a rapidez das mudanças também assusta. Nosso personagem, muitas vezes, vê-se às voltas com paradigmas novos, que nem sempre se encaixam com o tradicional. A própria legislação em Educação, em nosso país, tem passado por críticas constantes, por não conseguir acompanhar a velocidade com que emergem novos cenários. Auto-aprendizado, formação continuada autônoma e “home schooling”, por exemplo, ainda são bichos-papões incompreensíveis, que muitos evitam até tocar no assunto. A relação docência-aprendiz vê-se tomada pela necessidade de aprimoramento constante nas duas pontas. Wikis, ambientes virtuais, novas plataformas, redes inovadoras de interação – tudo é rápido e tem que ser aprendido com agilidade, sob o risco da obsolescência.

Sem dúvida, não há volta. Como afirma LÉVY (2006), cada vez mais, Educação a Distância e o formato presencial mais se assemelharão e se apropriarão do melhor dos dois mundos. Não há como se desfazer das tecnologias, mas sim há que se utilizar delas com bom senso, como ferramentas, como suporte ao anseio maior de todo processo educacional, seja a distância ou presencial: tornar as pessoas melhores!

(Ney Mourão é jornalista, tutor em Educação a Distância, e vive a boa ansiedade dos dois mundos - é educador e eterno aprendiz!)

1 comentário Segunda, 26 de Maio de 2008 às 14:22 admin

Fotografia, Baudelaire, arte e “flores do mal” ou o Louvre na internet?

baudelaire - baudelaire
Ando às voltas com a leitura dos poemas de “Flores do Mal”, do poeta francês Baudelaire. Historicamente, afirma-se que Baudelaire teria lançado as bases da poesia moderna, influenciando a poesia internacional de tendência simbolista. De sua maneira de ser originaram-se na França os poetas “malditos”. Foi inspirador de outros escritores considerados “não-convencionais” para sua época, como Rimbaud e Lautréamont, e teria influenciado, ainda, artistas como Verlaine e Mallarmé.

Movido pela curiosidade de conhecer mais sobre o autor dos versos inquietantes, pesquiso um pouco sobre sua vida. Dentre outras coisas, descubro que o poeta Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris em 9 de abril de 1821. Após desavenças com o padrastro, foi obrigado a interromper seus estudos, iniciados em Lyon, para uma viagem à Índia. Acabou ficando no meio do caminho, nas ilhas Maurício. Ao regressar, torrou seus bens na boemia parisiense, onde conheceu a atriz Jeanne Duval, uma de suas musas. Outras seriam, depois, Mme. Sabatier e a atriz Marie Daubrun. Endividado, foi submetido a conselho judiciário pela família, que nomeou um tutor para controlar seus gastos. Baudelaire permaneceu sempre em conflito com esse tutor, Ancelle.

Uma surpresa em sua biografia: Baudelaire criticava a fotografia, invenção contemporânea à sua época, dizendo que ela não poderia ser considerada como “arte”. Eu, como amante das duas expressões artísticas, vejo-me envolto em algumas reflexões.

Já sabemos que a arte acompanha a marcha do tempo, evoluindo e modificando suas concepções. Aponta novos princípios em substituição ao processo anterior, e cada fase que aporta significa que uma escola lançou sua âncora ao fundo, emergindo outra à superfície das águas.

Charles Baudelaire viveu sua idade adulta no cerne de uma civilização dominada por antagonismos e ambigüidades. Em Suas “Flores do Mal”, o poeta fala destas ambigüidades. Traça correspondências entre o mundo material e espiritual, revolucionando a arte poética. Esta renovação inaugurada por Baudelaire faz germinar o Simbolismo, que vem, justamente, substituir a ideologia realista-naturalista. Os novos poetas e artistas exprimem o sentimento de uma corrente que fala da decadência. Verlaine, inclusive, contemporâneo de Baudelaire, adota como temática de alguns sonetos o declínio da civilização greco-romana. Baudelaire, por sua vez, apresenta o homem como um ser incapaz de se localizar no mundo, perdido.

Tornam-se, então, compreensíveis os questionamentos do “decadentista” Baudelaire. Afinal, o daguerreótipo, em sua essência, é a máquina concebida para registrar a realidade. A máquina fotográfica propõe-se a ser o instrumento da arte realista, a arte natural. Mas, questiona Baudelaire, a realidade é decadência, a realidade é estupidez das massas, é turbilhão caótico. A arte, na visão baudelairiana, não deve ser corrompida por esta vulgar tentativa dos realistas em firmar-se como “construtora’ do belo. Só a arte pode exprimir beleza. E a realidade, expressa pela fotografia, é dura, caótica, crua, paradoxal, repleta de valores decadentes e instáveis. Como pode, replica Baudelaire, que a fotografia seja provedora de toda garantia de exatidão, como acreditam os defensores da “arte fotográfica”’, se a realidade, em si, não é exata?

Para nós, contemporâneos da fotografia digital, da televisão e da fotografia de alta definição, da arte concreta, da vídeoarte, da poesia eletrônica, da telefonia celular, dos clipes musicais altamente editados, talvez possa soar absurdo questionar-se a possibilidade da fotografia como arte. No entanto, é necessário voltar às linhas iniciais desta digressão: a arte acompanha – ou, pelo menos, tenta acompanhar – a marcha do tempo, evoluindo e modificando as suas concepções. Habituamo-nos já, pelo corriqueiro e usual, a colocar a fotograia no rol das nobres artes. Esta discussão, puramente conceitual, já não tem espaço preponderante. Grandes fotógrafos fizeram e fazem de seus “cliques” momentos de extrema arte, onde o real, o poético ou o imaginário se mesclam e se fundem, em indiscutíveis manifestações artísticas.

O poeta Baudelaire, como porta-voz revolucionário de uma época, foi ao mesmo tempo o questionador daquilo que constitui ameaça à arte pura, consciente. Na tentativa de defesa da arte, tentou delimitar os campos de atuação de uma e de outra expressão: “a fotografia deve, portanto, retornar à sua verdadeira tarefa, que é a de secretária das artes e das ciências”. Assim como, em tempos mais tarde, também seriam questionados o Cinema, a televisão, o Vídeo. Assim como, hoje, questiona-se, ainda que pouco, a possibilidade “artística” das novas tecnologias. Será arte um elaborado poema concreto, em vídeoarte, questionam os mais puristas? Será arte uma música composta em acordes “midi” ou “wave”, através de um sintetizador? Qual o valor artístico de contemplar a Mona Lisa na internet? Talvez o poeta Baudelaire, se nosso contemporâneo, estremecesse ante à possibilidade de fazer um tour pelo Louvre virtual, nas páginas da web.

Fotografia é arte? Durma tranqüilo, Baudelaire! Quem sabe, hoje, poeta, estivesse você também em meio a bits e bytes, nas ondas, no ar, em big closes, em montagens artísticas pelo vídeo, pela TV, pelo monitor de 42 polegadas em HDTV, fazendo pose, desfrutando dos seus 15 minutos de fama, preconizados por outro revolucionário de nome Warrol…

Fotografia é arte? O poeta Baudelaire não acreditou. Uma pena! Tudo bem… Viva a vídeoarte! Vivam os outdoors elaborados de grandes campanhas! Viva a arte fotográfica! Ah, e a propósito: “click”, sorria, Baudelaire! Você está sendo fotografado!

(Ney Mourão)

Adicionar comentário Sexta, 23 de Maio de 2008 às 19:42 admin

Para começar um texto… é só começar!

comecando - comecando
No momento de redigir um texto, uma dificuldade que é bastante comum: como começar? Como colocar no papel as idéias, dando-lhes um ordenamento lógico e coerente?

A resposta pode parecer óbvia, mas é uma provocação proposital. Comecem pelo começo! Calma! Antes que tenham vontade de esganar-me, vamos a uma pequena metáfora. Como devemos começar a construção de uma casa? Se você disse “comprando os materiais”, errou! Uma casa começa a ser construída pelo terreno, pelo revirar da terra, pelo mato sendo arrancado, pelo trator, pela enxada. Imagem ainda distante da casa verdadeira, concreta e bem acabada. Antes mesmo, é necessário que haja um projeto, cujo início são rabiscos, esboços desmanchados e reescritos de maneira sôfrega sobre um papel fino e transparente.

Sabem qual o maior erro de quem vai escrever um texto? Imaginar que ele deve “nascer pronto”! Com princípio, desenvolvimento e conclusão; parágrafos ordenados, conforme mandam os manuais! Senhores e senhoras, trago boas-novas, como disse o poeta! Comecem RABISCANDO! Isso mesmo! Sua futura casa, com azulejos coloniais e mármore branco, deverá nascer dos escombros do seu inconsciente para vir à tona, magnífica e bela. Peguem a folha de papel e pensem nela como algo que, primeiro, deve ser rabiscado, com idéias soltas, inicialmente desconexas. É o seu interior que fala, pulsa, latejando de vontade de expressão.

A tribo da Matemática rabisca continhas nos cantos do papel… Os físicos e químicos têm pranchetas onde anotam possíveis resultados, antes da comprovação. Os químicos, antes da mistura final, ensaiam, escrevem, anotam. As costureiras, antes do molde definitivo do belo vestido que enfeitará os salões, anotam as medidas em pequenos papeizinhos. Por que diachos ensinam aos pobres redatores que seu texto tem que nascer pronto e acabado?

Se o tema a ser desenvolvido é Ecologia e a primeira imagem que lhe vem à mente são árvores, riachos e peixes e você quer fazer desenhos, permita-se! Deixe que seu artista interior fale…

Depois de alguns minutos rabiscando, desenhando, deixando brotar palavras soltas, perceberá que as frases começam a surgir e que o emaranhado de coisas sobre o papel vai forçar o nascimento do sentido. Perceberá que determinadas palavras são boas e lhe servem, outras podem ser descartadas.

Ficará mais fácil organizar o seu pensamento e as idéias, ordenando e colocando juntas aquelas que têm afinidade. Eis a sua coerência surgindo. Eis a clareza sendo construída. Eis a sua casa sendo edificada, da maneira como uma casa deve ser erguida, do chão ao teto, nunca ao contrário.

Aos que têm dificuldade em começar, faço o convite: tentem! Você lhe proporcionará uma grata surpresa!

(Ney Mourão - Jornalista, poeta, redator publicitário, especialista em Educação a Distância. Webmaster do site Redação Criativa. Mesmo não sabendo desenhar, elabora desenhos mentais, no momento de iniciar um texto)

neyembh - neyembh

4 comentários Quinta, 22 de Maio de 2008 às 12:24 admin

Vai ao colo de tua mãe, menino!

mae 1 - mae 1

(Foto: “Migrant Mother”, Dorothea Lange, 1936)

Em seu mês, a todas as mães,
desejos de muitas felicidades.

Aos filhos,
Um pedido especial…

Se te escapares a beleza e a magia das cores de cada novo dia, vai ao colo
de tua mãe, menino!
Se te faltares o doce som do riso, a brisa tépida das manhãs, as cores dos
olhos das crianças, vai ao colo de tua mãe, menino!
Se acaso não encontrares a rima rica da esperança, a suave crença no que
virá, vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, por um momento sequer, dirigir teu olhar a um irmão com outro sentimento
que não seja o amor fraternal entre filhos do mesmo ventre cósmico, vai ao
colo de tua mãe, menino!
Se começares a desacreditar dos homens, na sua possibilidade infinita de
bondade, encarando o Planeta como um campo universal de falta de fé e
futuro, vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, em meio aos teus projetos de vida, constar apenas desejos de glória,
fama, ambição, dinheiro e posses, vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, há muito, não abraças um irmão, não diriges a ninguém um gesto de
carinho, não brincas com teu filho, não sorri para teus superiores ou
subordinados, vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, há muito, não sabes da doce alegria de um afago nos cabelos e a passagem
dos anos é apenas um amontoado de dias que se sucedem como um vendaval
apressado, vai ao colo de tua mãe, menino!
E se já te faltas a presença física, em tua vida, desse cálido colo a
conduzir-te pela estrada da Esperança, escolhe um lugar sereno, onde possas
ouvir com calma teu coração. E, em silêncio, ouve o eco de um outro coração,
que bate com vigor e te acalenta em todos os momentos. É, com certeza, o
coração dela, em algum lugar do infinito mistério, a aguardar e velar por
ti, em cada momento do teu dia., sempre dizendo, com emoção: “Vem, filho…
Vem ao colo de tua mãe, menino”!

(Ney Mourão)

Adicionar comentário Sábado, 17 de Maio de 2008 às 20:13 admin

Tecnologias na Educação: esse bicho morde?

elearning - elearning

Recentemente, em um fórum de educadores na internet, deparei-me com duas indagações, em princípio colocadas de forma independentes:

· “Que benefícios reais educadores e educandos podem obter a partir da introdução das tecnologias de informação e comunicação?
· Que desafios e dificuldades surgem com a incorporação das tecnologias à prática educacional?”

Na verdade, as duas perguntas são complementares e devem ser respondidas sob um mesmo foco. A introdução das TICs no meio educacional traz em seu bojo desafios, contradições e perspectivas múltiplas, que tornam o trabalho dos profissionais que a ela se dedicam complexo e sério.

Em primeiro lugar, é inegável o aspecto fomentador do desenvolvimento de competências e habilidades – e isso, mirando-se tanto o universo do educando quanto o universo desse “novo professor”. Novas competências relacionais, cognitivas, produtivas e pessoais são demandadas, em cada nova situação tecnológica, como a administração comportamental em uma sala de chat, a moderação responsável e equilibrada de grupos, a motivação de equipes a distância, a organização e planejamento dos conteúdos de forma agradável, a resolução de conflitos inter-relacionais.

O “novo aluno” precisa aprender a otimizar seu tempo e a lidar com toda uma parafernália disponível de recursos, empregando-os de forma responsável e, ao mesmo tempo, dividindo, com o seu professor, novos jeitos e “sabores” no aprendizado. Já o “novo professor” tem à sua frente um universo inesgotável de possibilidades, que podem tornar a relação com os sujeitos e os objetos de aprendizagem muito mais eficazes e eficientes.

Alguns adjetivos poderiam definir, de forma bastante concisa, os novos aspectos desse aprendizado, traduzidos em benefícios quase imediatos:
- dinamismo (com a tecnologia, o acesso à informação, se bem orientado, pode ser muito mais ágil, rápido e eficiente);
- ludicidade (alguém duvida do prazer que os alunos têm, com suas descobertas nesse novo mundo tecnológico?),
- precisão (com determinação e orientação sistemática do foco, pelo educador, o ato de pesquisar pode ser bem mais correto),

É importante, no entanto, não nos deixarmos cativar por uma visão imediatista, imaginando que é um universo sem desafios a serem enfrentados. Há que se ter em mente uma visão conjuntural de um país imerso em desigualdades sociais, econômicas, culturais e até mesmo de vontades e posturas políticas. E os desafios são imensos.

Resistência! Talvez o primeiro e maior deles… A resistência ao novo. A resistência corporativista, que se agarra com unhas e dentes a uma realidade antiga, conformista e que assegura determinadas relações de poder, de comando e de relações sociais. Acompanhei de perto, por exemplo, o trabalho de implantação de TICs no interior de um determinado Estado brasileiro. Lá, em cidades onde até há bem pouco tempo a luz elétrica foi uma novidade, vi diretoras que ainda defendem a palmatória, para alunos que porventura surrupiem a bolinha do mouse. Vi – não foram poucas! – diretoras que receberam computadores novinhos em folha e deixaram que todo um laboratório de Informática caísse na obsolescência, por total falta de uso, com “medo” de que seus alunos estragassem as máquinas. Vi diretoras que levavam a chave dos laboratórios de Informática consigo, para casa, numa demonstração inequívoca de que o uso racional das tecnologias requer educação de base, competência gerencial e, acima de tudo, bom senso. Nessa trajetória, tenho acompanhado de perto professores que se amedrontam, crendo que a máquina irá substituí-los. Gosto sempre de dizer que o professor que um dia for substituído por um computador terá merecido a substituição!

Gestão competente dos recursos disponíveis é outro mega-desafio! E, aqui, cabe dizer que o termo “gestão” aplica-se não somente a diretores, mas a todos os atores sociais do processo educativo. É extremamente comum percebermos o uso de máquinas de última geração para aplicabilidades antigas. Computadores encarados como máquinas de escrever avançadinhas e modernas. Salas de informática de escolas utilizadas para aprender digitação e fazer desenhos no Paint Brush. Ou, ainda pior, conteúdos sendo digitalizados com a mesma feição e a mesma (IMPER)feição dos conteúdos impressos – mera transferência da ausência de qualidade, mera sub-utilização das potencialidades de uma ferramenta.

Creio que os desafios que ora enfrentamos são naturais. Não vivi os dias em que chegaram, pela primeira vez, os livros, às mãos do grande público. Mas imagino como deve ter sido sofrido e caótico o longo período de transição, até que o saber se disseminasse com a palavra impressa, saindo das cúpulas dos grandes mestres para a população, sedenta por conhecimento. Vivemos, creio, esse tempo novo da disseminação. Os “proprietários” desse saber estão aflitos, vendo-o escorrer por suas mãos. A grande massa, ansiosa por ele, está ávida, como quem corre ao pote de mel em meio à fome. Natural que assim aconteça.

(Ney Mourão)

9 comentários Quinta, 14 de Fevereiro de 2008 às 15:41 admin

Compensações

roda - roda

O grande amor
da minha vida
trocou-me
pelo primeiro quarteto
de rodas radiais
que cruzou
a avenida!

(Ney Mourão)

1 comentário Sábado, 12 de Janeiro de 2008 às 18:55 admin

Idéia fixa

semaforo - semaforo

Sinal intermitente no amarelo.
Meus olhos só vêem
teu coração que bate.

(Ney Mourão)

Adicionar comentário Quinta, 10 de Janeiro de 2008 às 12:18 admin

O silêncio virtual nos ambientes de aprendizagem: pensando alto sobre a questão.

(Ney Mourão)

silence - silence

Na Era da Informação, cada vez mais é importante que as pessoas sejam dotadas da competência para se expressar. Falar em público, manifestar a sua opinião, interagir com os demais membros da comunidade tem-se tornado, cada dia mais, uma exigência comum nas organizações que aprendem.

Quando se fala em interação, no entanto, surge um fantasma, que costuma assombrar os castelos, tanto de profissionais, quanto de alunos como de educadores, principalmente quando se fala em Educação a Distância, ambientes colaborativos, fóruns de interação. Por que muitos atores sociais assumem o papel de personagens pouco falantes, quase nada escreventes ou aparentemente omissos, quando deveriam co-operar, com o diálogo, com os demais participantes, em um curso ou atividade de aperfeiçoamento? Por que muitos indivíduos com reconhecido talento, ao lidarem com um fórum de discussão, uma lista temática ou uma sala de aula virtual preferem tornar-se membros de uma obscura “turma do fundão”? Qual seria a causa do silêncio virtual?
Tenho algumas suposições. Longe de qualquer experimentação científica, elas são fruto da observação cuidadosa das pessoas, de suas relações, de seus modus vivend e modus operandi. Arrisco-me, aqui, a esboçar algumas dessas suspeitas.

1. Dificuldade de expressão - Principalmente porque manifestar-se exige correção na escrita, clareza, coerência, coesão. Como professor de Produção textual, sei como muitos alunos encaram isso como um verdadeiro pesadelo.

2. Ausência de motivação com o tema em questão - Não havendo a obrigatoriedade, e se o tema não desperta, de fato, interesse, não há motivo para a manifestação. Eu talvez jamais me manifestasse sobre o último jogo entre Cruzeiro e Atlético. Não gosto de futebol e não é um tema sobre o qual eu me moveria.

3. Desinformação sobre o assunto em pauta - No exemplo que acabei de citar, acima, se vocês começarem a discutir sobre as últimas aquisições do Cruzeiro ou do Atlético, ou seja lá de que raio de time que for, é bastante provável que eu não tecle uma vírgula. É claro que, se eu for obrigado a isso, amanhã terei que comprar um jornal, emergencialmente, e ler o caderno de Esportes. Mesmo assim, haverá que ser computado o tempo de silêncio, entre a minha busca, a minha pesquisa, a minha “digestão” (ou “indigestão”) do tema.

4. Postura agressiva perante a tutoria - Sim!!!! Alguém já ouviu dizer que o contrário do amor é a indiferença? Um tutor que gere sentimentos de não-empatia, de ausência de simpatia ou de antipatia, por motivos diversos, em um determinado aprendiz, pode gerar nele uma sensação de indiferença, de rancor que, por não poder se tornar manifesto, transforma-se em silêncio latente, consciente ou inconsciente. Nada muito diferente do campo presencial. Alunos extremamente calados podem estar buscando agredir o professor com seu silêncio. OU apenas se preservarem de uma relação interpessoal conflituosa. Calado, evito aborrecimentos, pode pensar o aprendiz. Bem-vindos ao campo freudiano!!!

5. Ausência de competência técnica para lidar com o ambiente - Em alguns casos, há aprendizes que vão “fuçando” por fora, observando, aprendendo primeiro, antes de mostrar-se. Há, aí, o medo da exposição, o medo de assumir que não sabe lidar com a ferramenta.

6. Medo da não-pertinência - É o medo que advém quando o aprendiz percebe-se um “estranho no ninho”. Um técnico, em meio a acadêmicos, por exemplo. Um poeta, no meio de matemáticos. Um leigo, no meio de professores de renome. Um leigo,em meio a especialistas em determinado tema. Com receio do ridículo, do fazer feio, alguns aprendizes podem preferir se calar.

7. Temperamento natural - Ora, bolas. Se no mundo presencial há pessoas que não são muito mesmo de falar, porque no campo virtual elas são obrigadas a engolir as pílulas que a boneca Emília engoliu e tornarem-se uma “torneirinha de asneiras”, como descreveu Monteiro Lobato? Eu, por exemplo, teria dificuldades em ficar “calado”. Se eu me calar, podem apostar que há algum problema humano ou técnico (risos). Mas o oposto é real: há seres mais ouvintes do que falantes. Há, inclusive, profissionais pagos para apenas ouvirem - que o digam (ou não digam…) os psicanalistas gestálticos!

Por enquanto é isso. Em matéria de silêncio, creio que já falei por demais! Quem concordar, que grite em uníssono. Quem discordar, que fale ainda mais alto!

(Ney Mourão, tutor em cursos de Educação a Distância, costuma defender a idéia de que mais vale falar pouco e bem do que muito e pelos cotovelos - tanto no aprendizado virtual quanto no presencial!)

6 comentários Quarta, 9 de Janeiro de 2008 às 19:54 admin

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